RECORDAÇÕES DO INSTITUTO CAJAMAR

 

Hace algún tiempo en ese lugar
donde hoy los bosques se visten de espinos
se oyó la voz de un poeta gritar
“Caminante no hay camino,
se hace camino al andar…

- Antônio Machado –

Poeta espanhol - 1912[1]

 

    
    Antes do INSTITUTO CAJAMAR (INCA) eu já tinha vivido uma década na militância popular, porém só compreendi a importância da dimensão teórica da luta social ao fazer o curso de Formação de Formadores do Movimento Popular (FFMP), em 1993. Foi um curso intensivo sobre a educação popular, o planejamento, a sistematização das experiências, dentre outros temas. Pela primeira vez eu ouvi sobre a Teoria Dialética do Conhecimento. Tantos termos novos, tantas ideias complexas! Nunca me esqueci do quanto foi difícil a aula sobre a diferença entre conhecimento, gnosiologia e epistemologia. Naquele ano, eu entendi que os estudos eram um guia imprescindível para a vida social, política e organizacional.

 

A caminho do CAJAMAR 

    

Sou capixaba de Iúna, município da Serra do Caparaó, esplêndida região protegida pelo Parque Nacional. Nasci em 1964, dois meses após o Golpe Militar, numa família rural e tradicionalmente de direita. Por ironia da vida, sou das mesmas montanhas onde se passou a Guerrilha do Caparaó, em 1967/68, considerada o primeiro enfrentamento ao Regime Militar. Ainda tenho na memória a imagem dos caminhões do Exército Brasileiro cheios de soldados aterrorizando as pessoas da região em nome do combate aos comunistas e da segurança nacional.

    Aos 15 anos deixei minha terra natal para iniciar a vida religiosa na Congregação das Irmãs Sacramentinas de Nossa Senhora, onde fiquei por mais de cinco anos. Lá eu concluí o 2ª grau, com habilitação em magistério para o ensino de 1º grau (1ª a 4ª série).     Também estudei assuntos relacionados à articulação entre fé e compromisso social, um tema quente no debate pastoral, especialmente durante as décadas de 1960-80, devido ao processo de atualização da Igreja Católica orientado pelo Concílio Vaticano II.     A América Latina foi um terreno fértil para as novas propostas, sobretudo por causa dos debates instigados pelos teólogos da libertação e pelas vivências inculturadas de leigos, freiras e padres inseridos nas comunidades das regiões periféricas de todo continente.

    Em 1984 eu deixei o convento e fui para Tarumirim, em Minas Gerais, onde vivi com as Comunidades Eclesiais de Base organizadas pelo Movimento da Boa Nova (MOBON). Morei na casa dos pais de uma amiga, Maria Luiza Coleta, que foi minha colega de convento.         Um amigo seminarista, Nelito Dornelas[2], nos colocou em contato com a CPT/CIMI, em Belo Horizonte. A partir das orientações do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) organizamos um grupo de camponeses que queria fazer uso de uma terra abandonada pelo Governo Federal, uma área que estava dentro dos critérios da Reforma Agrária. Enquanto discutíamos com os trabalhadores, circulou a notícia que nós iríamos ocupar a tal área. O Prefeito, então, conseguiu o Batalhão da Polícia Militar de Governador Valadares para reprimir o nosso movimento. Polícia, delegacia, inquérito, notícias diárias em jornais da região... um grande barulho que espalhou as informações em toda rede de comunidades do MOBON. A Comissão Pastoral da Terra (CPT) nos acompanhou dando apoio e assessoria através de Durval Ângelo, que posteriormente se tornou deputado estadual pelo PT/MG. Tínhamos também a assessoria jurídica de Geraldo Nascimento de Oliveira, advogado residente em Timóteo, onde foi prefeito e, depois, deputado estadual pelo PT/MG. Em pouco tempo os trabalhadores conseguiram a terra onde hoje é um assentamento bem-sucedido. No embalo desta movimentação fundamos o Partido dos Trabalhadores, em Tarumirim. Devido à capilaridade do MOBON, a região se avermelhou. Nesta vivência eu entendi que a luta política é uma seara em que se plantando tudo dá.

    Naquele momento de grandes mudanças e confrontos sofremos muitas ameaças. Por isso, decidiram me tirar de Tarumirim e me encaminharam ao sul da Bahia para trabalhar no Conselho Indigenista Missionário (CIMI). Eu tinha apenas 21 anos quando fui contratada pela Diocese de Itabuna para atuar junto aos Pataxó HãHãHãe, localizados nos municípios de Camacan, Pau Brasil e Itaju do Colônia. Eu era uma jovem testada em conflito por terra, por isso considerada adequada para aquele trabalho cujo problema principal era fundiário, uma disputa por 54.104 hectares de terra entre 1.500 índios e 400 fazendeiros de cacau, os maiores da região. Uma briga tão grande que, em 1985, a Anistia Internacional lançou a campanha: Socorro! Tem gente com dedo no gatilho - a luta dos Pataxó também é sua. Durante seis anos estive com eles e conheci a violência naquelas matas de cacau onde acompanhei as consequências dos confrontos armados com mais de 100 mortos e feridos. Embora já tivesse lido Jorge Amado, foi lá que eu vi, de perto, a truculência da União Democrática Ruralista (UDR) sob o comando de Ronaldo Caiado, em nível nacional. A violência me adoeceu e fui transferida para o Espírito Santo. Somente em 2012, duas décadas após a minha saída da região, o Superior Tribunal Federal (STF) determinou a anulação dos títulos de propriedades concedidos aos fazendeiros e agricultores dentro da reserva indígena. Enfim, a Reserva indígena Caramuru-Catarina Paraguaçu foi totalmente recuperada e regularizada pelos Pataxós Hãhãhãe. Com eles eu entendi a ousada lição de Gonçalves Dias na Canção do Tamoio: “A vida é combate, que os fracos abate, que os fortes, os bravos, só pode exaltar”.

    A Constituinte1987/88 mobilizou os povos indígenas num grande lobby político cujo resultado específico foi a garantia dos seus direitos na Constituição Federal/88. Incrível notar que somente no centenário da abolição da escravatura, véspera do centenário da proclamação da República, os povos originários desta terra foram reconhecidos constitucionalmente na 7ª Constituição da República Federativa do Brasil, após muita pressão aos deputados constituintes.

    Após intenso trabalho de lobby em Brasília, o novo desafio era construir as condições para fazer cumprir os direitos adquiridos na Constituição Federal de 1988. Então, com o apoio das entidades indigenistas, sobretudo o CIMI, os povos indígenas criaram organizações para representá-los nas diversas regiões do país e, no âmbito nacional, criaram o Conselho de Articulação dos Povos e Organizações Indígenas do Brasil (CAPOIB). Dentre as novas organizações regionais, surgiu a Articulação dos Povos e Organizações Indígenas do NE, MG, ES (APOINME), da qual eu fiz parte enquanto assessoria desde a primeira reunião, em 1990, até a assembleia de formalização institucional, em 1995.

    Voltei para o Espírito Santo, em 1991. Enquanto membro do CIMI, passei a integrar a Equipe Tupiniquim, além de continuar na função de assessoria regional à APOINME. Durante quase seis anos eu trabalhei pela Diocese de Colatina, no município de Aracruz. Foi um período de grandes ações, por exemplo, a conferência pelo meio ambiente que aconteceu em Vitória/ES em preparação da RIO/92, quando eu estive com a Greenpeace na ação que parou o PORTOCEL por três dias com o famoso barco Guerreiro do Arco-íris - Rainbow Warrior.

 

O Curso de Formação de Formadores do Movimento Popular

    Em 1993, o INCA era a referência de escola para os militantes. Nesta Universidade do Trabalhador, a Formação de Formadores do Movimento Popular (FFMP) capacitava para a elaboração de políticas e estratégias formativas a partir da Filosofia da Práxis, uma concepção inspirada em Paulo Freire que promovia a reflexão da ação para transformar a realidade. A metodologia era assentada no resgate da construção coletiva do conhecimento e na integralidade do ser humano. Este curso, com duração de 01 ano, tinha 04 etapas presenciais e muitas tarefas não presenciais – estudo, pesquisa, planejamento, realização e registro de atividades formativas, dentre outras.

    Na composição da minha turma havia pessoas de vários estados brasileiros, vindas de diferentes organizações do movimento popular, com grande diversidade de segmentos sociais. Do CIMI, nós éramos 04 participantes: Ângelo, Dagmar, Jorge e eu. Nas etapas de formação havia outros cursos para grupos sindicais ou políticos. Ficávamos durante sete dias num local distante de qualquer vilarejo.     

O intercâmbio era inevitável. Todo tempo era formativo. Os intervalos, as refeições e as noites eram muito animadas. Eu fiz 29 anos durante a 2ª etapa do curso. Era uma jovem plena em vigor que saía de cada etapa arrebatada pelo Projeto Democrático Popular. Afinal, éramos um país com 150 milhões de brasileiros, dos quais 100 milhões viviam na pobreza, dentre esses, 60 milhões em condições de miséria e 32 milhões em total indigência. De fato, precisávamos de “Lula-lá pra fazer com vontade, de verdade, um novo país”.

 

Se faz caminho ao andar

    Durante o curso, a sistematização da prática foi um tema que me interessou imediatamente. Antes de concluir a formação, Jorge e eu começamos a sistematizar a experiência de formação do CIMI junto aos povos indígenas do leste e nordeste. O resultado deste trabalho foi apresentado no Encontro Nacional de Educadores dos Movimentos Populares, em 22-23/11/1993.

    Após o curso, apresentamos a proposta de sistematização da prática aos membros da direção nacional do CIMI. A ideia amadureceu e, durante o processo de avaliação de 25 anos desta entidade, em 1997, conseguimos sistematizar a sua atuação junto aos povos indígenas.

    O planejamento foi outro tema que marcou a minha vida. No curso do INCA eu aprendi a utilidade do planejamento dos processos formativos, bem como a importância da articulação entre local-global, específico-geral, particular-universal. Busquei aplicar tais conhecimentos, tanto no trabalho com os tupiniquins e a APOINME, quanto na assessoria às outras organizações sociais, em campanhas eleitorais, nas paróquias, no Departamento de Pastoral da Arquidiocese, etc. Ainda hoje sou convidada a contribuir com esse tema em alguns trabalhos.

    Logo após concluir o FFMP/93, tivemos as eleições gerais de 1994. O estado do Espírito Santo elegeu Vitor Buaiz como primeiro governador do Partido dos Trabalhadores. Durante o seu mandato acirrou o conflito pela ampliação e unificação do território Tupiniquim e Guarani. Era uma disputa entre os dois povos indígenas e a multinacional Aracruz Celulose S/A, uma empresa moderna e conceituada, a maior do mundo em produção de celulose de fibras curtas, que havia se apossado das terras indígenas na década de 1960. Durante o mandato de Vítor Buaiz transcorreu o processo administrativo de demarcação das terras e o Governo Estadual se manifestou favorável aos Tupiniquim e Guarani. Embora houvesse amplo apoio social e institucional aos índios, eles tiveram que enfrentar diretamente a invasora de suas terras. Fizeram a autodemarcação em 1997-98 e conseguiram firmar um acordo com a empresa. As terras foram ampliadas em troca da suspenção da tramitação do processo. Alguns anos mais tarde, os índios romperam o acordo com a empresa e fizeram outra autodemarcação. Finalmente, em 2010 a área reivindicada foi homologada.

    Em 1997, eu deixei o CIMI e fui trabalhar na assessoria parlamentar do Deputado Estadual José Otávio Baiôco (PT/ES). Foi um período intenso de articulação política e social no Estado do Espírito Santo. Criamos o Fórum Campo e Cidade. Fizemos uma campanha internacional pela ampliação e demarcação das terras Tupiniquim e Guarani. A Rede Alerta contra o Deserto Verde estava em grande dinamismo. Iniciamos a campanha contra violência e a impunidade. Foram grandes os avanços político-organizacionais do movimento popular. Apesar disso, fomos surpreendidos pela derrocada que sofremos nas eleições de 1998. Lula perdeu pela 3ª vez as eleições para Presidente da República. O PT perdeu o governo do Espírito Santo e quase toda bancada estadual, apenas o deputado Cláudio Vereza foi reeleito. Tal como dizia Otaviano de Carvalho, ex-deputado do PT/ES: “uma chuva ácida se abateu sobre nós”.

    No ano seguinte eu completei 35 anos. Estava desempregada e cansada pelas batalhas enfrentadas e pelas derrotas sofridas. Então, em julho/99, eu fui estudar na Universidade Católica de Lyon, França, onde fiquei por dois anos fazendo especialização em engenharia do desenvolvimento local. Foi um período inesquecível porque, além de estudar muitas questões surgidas ao longo do meu trabalho, eu pude vivenciar a cultura de outro país, falar outra língua e conviver com pessoas de diferentes países que enfrentavam situações similares nos quatro continentes em que viviam – América Latina e Caribe, África, Europa e Oriente Médio. De lá eu voltei renovada, sem lamentar nada, tal como cantou Edith Piaf: “Non, je ne regrette rien. Ni le bien qu’on m’a fait, ni le mal. Tout ça m’est bien égal” – Não, eu não lamento nada. Nem o bem que me fizeram, nem o mal. Tudo isso tudo me é bem indiferente!

    Retornei a Vitória-ES em agosto/2001. Naquele período, as terras capixabas estavam agitadas pela luta da sociedade civil organizada contra a violência e a impunidade. O Centro de Apoio aos Direitos Humanos (CADH) me contratou para coordenar a implantação do Centro de Atendimento a Vítima de Violência (CEAV).

    As organizações sociais enfrentavam o crime organizado através do Fórum Reage ES contra a Violência e a Impunidade. Eu assumi a articulação internacional do Fórum e viabilizamos uma retaguarda para as nossas ações. Foram 190 defensores de direitos humanos ameaçados de morte e as principais lideranças ficaram sob proteção policial por determinação da Comissão de Direitos Humanos da OEA. Em 2002, conseguimos a prisão do então Presidente da Assembleia Legislativa, José Carlos Gratz e outras autoridades deste estado.

    Foi naquele ambiente agitado que se deu a eleição de Lula Presidente. O Espírito Santo elegeu a deputada federal Iriny Lopes que me convidou para trabalhar na equipe dela, onde fiquei por 08 anos, até a eleição da Dilma Presidente, em 2010, quando Iriny assumiu a Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres.

    Ao deixar a assessoria parlamentar eu estava no mestrado em Política Social, na UFES. Assim que terminei assumi o cargo de professora do ensino superior e, no semestre seguinte, aceitei o cargo de coordenadora do curso de Serviço Social. Após 04 anos, pedi demissão para me preparar para o doutorado e, hoje, estou estudando no Programa de Pós Graduação em Ciências Sociais da UFES, onde reencontrei Maria do Carmo, na pesquisa sobre o desastre da Samarco Mineração S.A.

    Desde o curso em CAMAJAR, se passaram 27 anos. Agora, vivemos o retrocesso político-econômico, por isso aceitei o convite para escrever a minha história de vida sob o prisma do curso do INCA. Afinal, somos responsáveis pelo legado dos jovens que darão prosseguimento a nossa história de lutas por um mundo mais justo e mais solidário. Esta é a primeira vez que faço uma revisão panorâmica da minha vida. Passei quatro dias vasculhando os porões da minha memória e as prateleiras dos armários onde encontrei algumas apostilas amareladas pelo tempo. Foi muito bom reler os registros do curso que tanto nos fez sonhar. Eu ainda não alcancei os sonhos que sonhei aquele ano no CAJAMAR. Mas não desisto fácil, pois como disse o poeta Antônio Machado: “Golpe a golpe, verso a verso, caminhemos, pois o caminho se faz caminhando”.

Obrigada Marco Arroyo, por esta iniciativa!

 

Vitória, 06 de julho.

Tânia Maria Silveira

silveira_tania_maria@hotmail.com

CAJAMAR 2020



[1] Inspirado neste poema, Benedito B. Prado compôs o hino católico “Caminheiro”. Em 1980 a música foi gravada pelo cantor brasileiro Astúlio Nunes e difundiu o poema de Antônio Machado, sobretudo o refrão: “Caminheiro, você sabe, não existe caminho. Passo a passo, pouco a pouco, o caminho se faz”. Música disponível em: https://br.pinterest.com/pin/771452611150987026/ Acesso em 02Julho2020.

 

[2] Pe. Nelito Dornelas “faleceu na quarta-feira (3) de fevereiro de 2021, vítima da Covid-19. Integrante do clero da diocese de Governador Valadares (MG), Padre Nelito foi um companheiro incansável na luta por justiça social. Dedicou sua vida às lutas sociais juntos aos grupos marginalizados e empobrecidos”, conforme a  Nota de Pesar do MST disponível em: https://mst.org.br/2021/02/05/nota-de-pesar-do-companheiro-de-luta-padre-nelito-dornelas/ acesso em 31Março2021.

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