Eu, o Instituto Cajamar e a luta pela Reforma Urbana
Pediram-me para escrever minha história de vida e minha relação com o Instituto Cajamar, centro de formação de lideranças dos movimentos populares e políticos, criado na década de 1980, no Município que leva seu nome: Cajamar, interior de São Paulo.
Eu me chamo Antonio Silvestre, sou cearense de Saboeiro, nasci no final do ano de 1965. Em 1972, minha família radicou-se na zona norte da capital paulista, fugindo dos anos de seca e cerca no nordeste. Fomos morar no bairro do Jardim Tremembé, perto do Horto Florestal.
Em 1980, já morando no Jardim Ataliba Leonel, bem próximo do Jardim Tremembé; conheci a Igreja Senhora do Carmo, na Vila Paulistana, o Padre Raimundo e os Seminaristas Edegard e Josival. E lá foi montando um grupo de jovens em meio popular, A PJMP. Comecei a participar e enxergar as mazelas sociais. A Igreja e a Pastoral me ajudaram na minha formação política. Em 11 de fevereiro de 1984 nosso grupo de jovens ajudou na ocupação chamada “Filhos da Terra”, com 1.027 famílias. Uma ocupação vitoriosa que está lá de pé, até hoje.
Depois dessa tarefa eu entrei no movimento de moradia Terra Prometida e fomos vitoriosos, conseguindo, depois de uma ocupação, negociar o conjunto habitacional Jova Rural, de onde fui eleito o primeiro presidente da Associação. Isso foi em 1989.
Em 1989, o Cajamar organizou do curso “Concepção e Prática do Movimento Popular”, convidando lideranças novas dos movimentos populares. Nessa época já era filiado ao PT (1985), fui indicado e de pronto aceitei.
Vale lembrar que eu já conhecia o Instituto Cajamar. De 1986 a 1988 trabalhei no escritório do MST em Sampa. Lá fizemos uma contribuição coletiva para ajudar nas obras do INCA.
O curso que participei foi bem intenso. Ficamos cinco dias estudando, trocando experiências e pensando ideias para melhorar o que já estávamos fazendo em nossos trabalhos. Quem nos acolheu foi o Gilberto Carvalho. A Maria do Carmo foi nossa coordenadora e me lembro da Renata Vilas Boas, da Jupira e do Paulo Vanuchi. Era um espaço muito bom para fazermos esses tipos cursos, de retiros.
Como eu era militante dos movimentos de moradia, fui convidado a ser sócio da Articulação Nacional do Solo Urbano - ANSUR, uma entidade que congregava pessoas ligadas à luta pela reforma urbana no Brasil. A sede nacional da entidade ficava no bairro de Santana, mesma zona norte que eu morava.
Logo depois da Constituinte e aprovação da nova constituição, em 1988, o movimento pela reforma urbana deu início aos processos de formação para disputa política para aprovação das constituintes estaduais e Leis Orgânicas Municipais. Começaram os cursos sobre Plano Diretor e o Cajamar foi o espaço para esses debates e articulações. Eu participei de um desses cursos que teve a Professora Raquel Rolnik como coordenadora.
O Instituto Cajamar foi o grande parceiro do Fórum Nacional de Reforma Urbana, da luta pela reforma urbana no Brasil. Foram grandes debates e encaminhamentos que saíram das reuniões no Cajamar. A carta pelo direito à moradia, antes da Conferência Habitat II, em 1996, na Turquia, foi um exemplo. Pena eu não ter em mãos, documentos desse processo.
Vários outros momentos da luta pela reforma urbana aconteceram no Instituto Cajamar. A ANSUR realizava seus encontros nacionais naquele espaço. Num desses encontros eu fui eleito coordenador nacional da ANSUR. Fiquei nessa coordenação de 1992 a 1996.
Quando o Cajamar iniciou os cursos de planejamento estratégico, a ANSUR indicou a Paula Ravanelli para ser a representante da entidade. Me lembro da Paulinha chegar na ANSUR muito animada com o que estava aprendendo e aplicando os ensinamentos em nossas reuniões de coordenação.
Também ajudei na formação do Fórum Paulista de Participação Popular, que foi criado numas das reuniões no INCA. Lembro-me do companheiro Celso Daniel falando da experiência da Prefeitura de Santo André, do Pedro Pontual fazendo suas ponderações.
Outra ação que tivemos o INCA como local dessa articulação e que pude contribuir também, foi a criação da Central de Movimentos Populares. A ANSUR ajudou na construção dessa entidade e as reuniões eram feitas no Cajamar. Uma das palestras de conjuntura foi dada pela professora Maria da Glória Ghon, da UNICAMP. Lembro-me do Raimundo Bonfim, do João André, de Mauá, da Mazé, de São Miguel Paulista.
Essas são algumas lembranças que trago agora sobre minha experiência de vida com o Instituto Cajamar. O Cajamar foi esse espaço revolucionário. Eu continuo sendo um revolucionário, e o INCA tem sua parcela de responsabilidade na minha formação.
Apesar de militar com política habitacional e urbana, fui fazer ciências econômicas. Enveredei pela economia solidária. Trabalhei nessa temática, ajudando a construir programas municipais de economia solidária nas cidades de São José do Rio Preto, Osasco e Registro; todas em São Paulo. E de 2015 pra cá, retomei minha militância da reforma urbana, agora junto com a economia solidária. Fui Secretário Adjunto da Secretaria de Habitação de Osasco a atualmente sou assessor da Secretaria de Habitação da Prefeitura de Fortaleza, Ceará.

A utopia leva longe. Parabéns. É bom ver tantos nomes conhecidos. Parabéns ao Instituto Cajamar.
ResponderExcluir