Maria Magdalena Alves conta sua expriência no Instituto Cajamar

 


Quem sou eu
?

Quando penso na Madá que chegou ao INCA na década de 1990, sinto que preciso fazer uma retrospectiva.

 Fui criada numa família de classe média, mas nunca me faltou nada até meu casamento em 1966. 

Fiquei casada apenas 2 anos, e saí deste período sem emprego e com um filho que na ocasião tinha 10 meses. 

Tive várias experiências profissionais, mas, me sentia insegura. 

Em 1976, prestei concurso e comecei a trabalhar na Prefeitura Municipal de São Paulo. 

O salário podia ser mais baixo, mas havia a tão falada estabilidade. 

Fui designada para trabalhar na Secretaria de Finanças onde realizei um bom trabalho de 1976 a 1989, tanto que mudava de cargos a cada 18 meses. 

Em 1989, eu me alternava entre a Chefia de Seção (Recebedoria e Pagadoria) e a Assessoria da Divisão da Tesouraria. 

Ao mesmo tempo em que trabalhava na Prefeitura, comecei a fazer serviços voluntários na Igreja de Santa Ifigênia.  

Cheguei na Paróquia para buscar a catequese para meu filho e acabei me envolvendo com diversas tarefas: trabalhos manuais para domésticas, catequese para crianças de 4 a 18 anos, pastoral da juventude e familiar.

Ao assumir a catequese na Igreja de Santa Ifigênia, mamãe e eu acabamos por revolucionar a catequese na cidade de São Paulo na medida em que criamos uma metodologia baseada em jogos, músicas e dinâmicas a serem realizadas nas casas das crianças e no seu entorno que acabou se tornando metodologia em várias Igrejas. 

A criançada curtia adoidado e com isso inventávamos ainda mais atividades como passeios e festas. 

Ao mesmo tempo em que atuava, percebia a necessidade de formação acadêmica e com isso busquei um curso supletivo e no final de 1977 prestei vestibular na Faculdade de Serviço Social da PUCSP. 

Naqueles anos, mais do que em outros momentos, a PUCSP era local privilegiado para se pensar a política. 

A invasão que aquela Universidade sofrera ainda estava muito patente e o compromisso com o combate a todas as formas de desigualdade e discriminação estavam muito presentes no nosso discurso. 

Num certo dia, quando estava levando o Álvaro para a escola e caminhava pela rua Santa Ifigênia, de mãos dadas com ele, cruzamos com um homem negro, maltrapilho e com o rosto sujo de sangue. 

Sem ao menos perceber o que fazia, fiz com que meu filho desviasse daquela pessoa, puxando-o para atravessar a rua. Antes que terminássemos a travessia, ele disse: “mãe, qualquer hora, eu gostaria que você me contasse como é que fica, na sua cabeça, falar todas as coisas que você fala de compromisso com os pobres e desviar de um deles como fez aqui..”. antes que eu tivesse tempo de responder, ou mesmo de respirar, ele completou: “deixa pra lá, né, mãe!” É claro que isto me fez entrar em crise, e até hoje, passados mais de 40anos, esta cena está na frente de meus olhos. 

Na mesma época que eu fazia a faculdade, Álvaro iniciava seus estudos no Colégio Bandeirantes e cursava a catequese de crisma. Nesse processo discutia com garotos e garotas da mesma idade que ele o compromisso cristão que recebia como ensinamento. 

Cursando a Faculdade, passei a atuar no social do centro da cidade, desenvolvendo um trabalho interessante com “pessoas em situação de rua”. De certa feita, o grupo saiu da Casa de Oração rua Florêncio de Abreu foi até o largo de São Bento e voltou... quem os vê, hoje, mobilizando esta cidade não pode imaginar o esforço enorme que fizeram para dar aquele primeiro passo. 

O trabalho com pessoas em situação de rua me levou da paróquia para um outro grupo que se formava e que constituiu o Centro Gaspar Garcia de Direitos Humanos e que atua com esta população e também com encortiçados. Luiz, Roberval, Tadeu, Washington, Amarildo, Jovilson, Juscelino, Ana Rita, Ana Feliciano e eu trabalhávamos juntos numa proposta inovadora de construção dos direitos destas pessoas.

Desde 1982, quando ainda estava na Faculdade, eu votava e fazia boca de urna pelo PT, mas ainda não era filiada. Eu dizia que queria primeiro entender o que significavam as tendências antes de entrar nesta parada. Foi em 1989 que me filiei. Uma das pessoas com as quais trabalhava num Centro de Direitos Humanos (Michael Mary Nolan) disse-me que apenas de dentro eu teria alguma chance de entender as tendências. Filiei-me, como sempre faço tudo de corpo inteiro, assumi a coordenação da Secretaria de Movimentos Populares do meu diretório (centro/SP) durante um mandato. Já naquela ocasião, eu queria discutir a situação de desemprego e achei muitas barreiras. Um dos meus companheiros de Diretório (que hoje tem outro discurso) chegou a dizer: não falta mais nada, de partido dos trabalhadores, passaremos a ser o partido dos desempregados. 

Juntando minha militância partidária e em direitos humanos, busquei formação no Instituto Cajamar INCA onde participei de diversos cursos voltados para o trabalho com Movimentos Populares. Um dos últimos cursos do qual participei, envolvia participação de agentes sociais, populares e partidários. Do Gaspar Garcia, éramos três pessoas: Ana Beatriz, Carmela e eu. Nas atividades do curso fazíamos muitas atividades em grupo e, em determinado momento, formamos um grupo cujo objetivo era preparar um Seminário sobre a Relação entre o Movimento Popular e a População Não Organizada. Ana Beatriz, Carmela e eu de São Paulo; Otair, do Rio; e Antenor, de Curitiba, no Paraná. Preparamos um Seminário que a Maria e a Nadir nossas mestras disseram estar de boa qualidade. Elas disseram que, se puséssemos nossas reflexões no papel, o INCA poderia publicá-las... 

Adoramos a ideia, mas éramos exigentes e não queríamos publicar qualquer coisa. Naquele ano, combinamos passar o Carnaval em Nova Iguaçu, onde o Otair morava, para estudarmos as nossas possibilidades. Estávamos muito animados, mas consideramos um problema o fato de morarmos em estados diferentes na medida em que cada encontro do grupo significaria despesas de viagem... a saída foi preparar um Projeto e buscar apoio financeiro com alguma organização. Fomos felizes na discussão com a Fundação Samuel e com isso pudemos, durante 18 meses, aprofundar nossos estudos, ora em Curitiba, ora no Rio de Janeiro, ora em São Paulo... o estudo ficou bom e a amizade solidificou-se."Importante anotar o processo que o FFMP provocou no Gaspar Garcia: eu fui em dezembro, e gostei... a Carmela e a Ana foram em fevereiro e cursamos juntas o FFMP 91. Em 92 foi o João, e em 93 a Anita, a Vera e o Gegê. (Note-se que a Anita é monitora, mas a Vera e o Gegê são lideranças do movimento de moradia que o Gaspar assessora)" (Madá, 28 jan 94). AZIBEIRO, 2002 p. 44

Outros Frutos do Cajamar 

Passado este período, durante mais um bom tempo, participei de um grupo, no Rio de Janeiro, no qual Otair, Barros, Luiz Cláudio, Ana Rosa e alguns outros companheiros constituíram um grupo de estudos e criaram o Instituto Civitas. Tempo rico de discussão política, em especial focando nas crianças e adolescentes em situação de rua, nos massacres e outras violências sofridas por eles. 

A Madá, hoje  

Nestes quase 30 anos, muita água passou debaixo da ponte. 

Desde minha primeira aposentadoria (1991) quando deixei a Prefeitura de São Paulo por ter avaliado que minha atuação seria mais significativa fora do que dentro do governo, passei por diversas experiências:

Além da Prefeitura de São Paulo, trabalhei 8 anos na Prefeitura de Santo André. 

Levei para lá a formação que havia recebido no INCA e acrescentei a busca de novas habilidades, como moderadora de grupos (N.K.) e iniciei uma formação como Coach (NewfieldConsulting). 

Toda esta bagagem vem sendo a base para minha atuação pessoal, profissional e política. 

Depois da aposentadoria da PMSP, voltei aos quadros municipais, durante 2 anos, como coordenadora de Projeto e Assessora na minha área que é Assistência Social. 

Além disso, desde 2009, venho atuando como consultora junto a Municípios, em especial no que se refere à Política para População de Rua. 

Uma aproximação com o Movimento da População de Rua (MNPR) tem permitido me apropriar da leitura que eles fazem de sua realidade e utilizo isso como insumo na discussão política com as diversas Prefeituras. 

Além disso, tenho coordenado Cursos de Formação para Assistentes Sociais de todo o Brasil (EaD), estando neste momento à frente de um Curso de Especialização no Sócio jurídico onde os diálogos com profissionais dos diversos estados tem sido muito ricos. 

Em todos estes afazeres, a formação que construí quando estive no Instituto Cajamar tem sido fundamental.

Além de uma leitura política do que ocorre no mundo e no Brasil, e olhe que hoje estamos penando nas mãos de um Presidente descontrolado, tem sido feitas a partir da ótica que partilhamos naqueles momentos felizes.A ideia de retomarmos esta articulação me parece muito significativa, principalmente neste momento que o Brasil vive e precisa de cada um de nós. 

Maria Magdalena Alves 
magdalves@mmaconsultoria.com 
blog: mmaconsultoria.com 
Fones: (11) 3313-1758(11) 996117633São Paulo, SP 
Abril/Maio de 2020

Comentários

  1. Agora que Madá nod deixou, faz muito mais sentido conhecer a sua história!!!! Madá presente!
    Madá guerreira, da gente brasileira!

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  2. Uma historia de vida dedicada a um Brasil que "precisa da cada um de nós". Madá, na tua caminha junto aos movimentos sociais e "por onde for, quero ser teu par".

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  3. Querida Madá, te conhecer e conviver com você foi ao mesmo tempo honroso e prazeroso. Ainda lembro das nossas conversas, estudos, discussões com compromisso e muita alegria nos tempos do curso FFMP no Cajamar EM 1992. Lembro da nossa pesquisa sobre Movimento Popular e População Não Organizada associando pesquisa e o prazer de estarmos juntos refletindo e escrevendo ( eu, vc, Antenor, Ana Beatriz e Carmela), nas viagens que fizemos para Curitiba (casa do Antenor) e para São Paulo (casa da Carmela). Receber vcs na minha humilde casa em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, em pleno carnaval no Rio de Janeiro foi momento maravilhoso para estudar e viver, pois aprender, ensinar e viver são princípios que sempre nos acompanharam desde o Cajamar. Aprendi muito com o seu jeito carinhoso de transformar e fazer coisas belas, pensando sempre no melhor dos sentimentos humanos. Sua dedicação à população de rua revela uma pessoa destemida e obstinada a fazer o bem sem olhar a quem. Uma mulher corajosa, guerreia, humana demasiadamente humana. Com saudades de ti, lembro trecho da canção preferida, de Vital Farias, que embalava nossos grandes momentos de amizade desde o Cajamar: "Não se admire se um dia, um beija flor invadir, a porta do céu, te der um beijo e partir. Fui eu que te mandei o beijo, que é para matar meu desejo. Faz tempo que não te vejo, ai que saudade d'ocê!" MADÁ VIVE!!!

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